A BUSCA DA VISÃO - Marcus Fraga

 

ARTIGOS

Tenho estudado xamanismo de forma multicultural toda minha vida, sendo grande parte de minhas vivências com a espiritualidade dos nativos norte-americanos.

Dentro da cosmologia Lakota o criador é chamado de Wakan Tanka, que vendo o sofrimento do povo, envia a Mulher Novilho Búfalo Branco, ser sobrenatural na forma de uma linda mulher, trazendo de presente um cachimbo feito de duas partes, uma de pedra representando o feminino e uma de madeira representando o masculino. Ela entregou este cachimbo ao povo junto com uma pedra desenhada com sete círculos concêntricos, cada circulo representa uma das cerimônias sagradas que foram ensinadas.

Com o cachimbo usado de forma sagrada, o povo iria sobreviver e tudo o que fosse pedido na cerimônia seria concedido. Esse cachimbo ainda existe e esta sob os cuidados da família Looking Horse. Entenda que este Cachimbo Sagrado é um instrumento vindo diretamente do Grande Espírito que é mais abrangente e maior do que o que em nossa cultura ocidental concebemos por "Deus", o cachimbo é tão sagrado, ou ainda maior dentro desta cultura, como o é o Santo Graal para os cristãos. Da mesma forma que uma missa tem um cálice de vinho e hóstia simbolizando o Graal e o pão da última ceia, Cachimbos Sagrados têm sido utilizados por iniciados nas tradições nativas como instrumento de oração e conexão com as forças da Natureza e da Criação, o Céu, a Terra, as Estrelas e todas as Relações. Este instrumento é chamado de Chanupa Wakan, literalmente "Cachimbo Sagrado" em Lakota, e ficou popularmente conhecido como "Cachimbo da Paz".

A cerimônia de Chanupa Wakan é realizada de diferentes formas. Existem canções específicas para retirar o cachimbo de sua bolsa (a bolsa se chama Canto Juha, ou "lugar que se guarda o coração"), canções para apresentar o cachimbo aos poderes do universo, para montar a parte masculina e feminina, para se encher o cachimbo de tabaco e para passar o cachimbo. A maioria das letras dessas músicas relembram a história da Mulher Novilho Búfalo Branco e relembra os participantes de como sagrada é a cerimônia e por isso o povo tem sido atendido em seus pedidos.

Diz-se que enquanto o cachimbo esta sendo preenchido de tabaco, espíritos mensageiros estão ouvindo as orações no coração das pessoas e se juntam com o tabaco, que uma vez fumado, desprende as orações em direção ao Grande Espírito, Wakan Tanka.

Quando conduzi minha primeira cerimônia de Chanupa, tive uma profunda sensação de comunhão como nunca havia sentido antes, era como se a fumaça que trazia a minha boca estivesse realmente repleta das orações dos participantes e ao soprar, era como se as palavras, orações e desejos de todos ali presentes saíssem de minha boca, me sentia um com todos ali presentes, e aprendi que a cerimônia era bem mais profunda do que imaginava.

Diversas Cerimônias de Chanupa já foram conduzidas por mim e por minha esposa, e são inúmeros os relatos de bençãos e pedidos atendidos que recebemos. Por conta desses relatos, muitas pessoas perguntam como podem também ser portadores de um cachimbo sagrado. Bom, respondo como eu aprendi, como eu fiz e como foi dito por Black Elk, um dos mais famosos medicine man Sioux: o cachimbo é ofertado em uma Busca da Visão que é um dos Sete Rituais Sagrados passados pela Mulher Novilho Búfalo Branco.

"As buscas visionárias e jornadas de poder são os métodos mais importantes para o desenvolvimento espiritual. O Criador entregou este conhecimento a todas as raças, desde o princípio, e todos temos que reaprender a usá-lo hoje em dia" -- Bobby Medicine Grizzly Bear

A Busca da Visão é um dos sete rituais sagrados entregues pela Mulher Novilho Búfalo Branco.

Black Elk conta que em um determinado momento uma pessoa o procura, pois quer ir "implorar por uma visão". Essa pessoa trás até ele um cachimbo. Black Elk leva a pessoa perante a tribo e diz: "Povo, veja esta pessoa, ela deseja implorar por uma visão". Depois leva o Buscador até a Inipi (ritual da tenda de purificação) e dali dirige-a até um lugar sagrado. A pessoa leva somente o cachimbo e um manto de búfalo, e ali vai ficar orando em jejum por um período de 4 dias, até que o Curandeiro retorne para pegá-lo.

Após, retornam para a Inipi, onde o cachimbo é fumado e o Buscador partilha as visões que recebeu.

Como disse anteriormente, sempre estive envolvido com xamanismo, e há tempos procurava uma cerimônia de Busca da Visão que pudesse confiar em sua origem. A oportunidade apareceu de algumas formas surpreendentes e acabamos conhecendo uma mulher medicina que tinha vivido quase duas décadas na América do Norte, sendo boa parte deste período dentro de uma reserva Navajo, mantendo também contato com Yaquis, Papago, Shumash, Lakota e tendo sido dançante do sol por 8 vezes consecutivas, aprendendo e recebendo autorização para conduzir cerimônias nas reservas do Arizona e, atualmente, também em seu país. A princípio eu e minha esposa estávamos incumbidos de intermediar algumas conversas sobre projetos fora do país, porém isto se configurou de outra forma e culminou em uma Busca da Visão cerca de um ano depois. O universo havia me proporcionado justamente o que procurava, e a cerimônia transcorreu dentro da perfeição e tal como havia lido nos relatos de Black Elk.

Muito tinha ouvido sobre o Caminho Vermelho (como é conhecido o caminho espiritual dos Nativos Norte Americanos) e toda a turbulência em volta do assunto. Declarações de guerra contra os exploradores da espiritualidade, pessoas impondo suas crenças sobre as outras e dizendo o que é certo e errado e toda a pompa que vi em cerimônias, fazia com que tudo parecesse muito distante. Graças à vontade do Grande Espírito pude ver com meus olhos e sentir com minha alma o que as antigas profecias indígenas já falavam, sobre a simplicidade do caminho, sobre a humildade dos mestres e que todos somos o Povo do Grande Criador, o Povo da Terra, a Raça dos Cinco Dedos.

Após a Busca, muitas bênçãos aconteceram, e tudo que é bom a gente quer para as pessoas que nos são queridas. Passados alguns anos, sentimos o chamado de proporcionar a mesma experiência que tivemos às pessoas que freqüentam nossos grupos e rodas e propusemos a organização de uma Busca da Visão. Desde o início deste ano um grupo de caminhantes já se encontra uma vez por mês para aprender, compartilhar e se preparar para a Busca da Visão. Esse grupo foi o que possibilitou a cerimônia acontecer e tem toda a nossa gratidão.

BUSCADORES

O Buscador é aquele que sentiu verdadeiramente o chamado para se recolher em jejum completo, em um local sagrado, para buscar uma visão. As pessoas saem em Buscas de Visão por muitos motivos, vão em busca de esclarecimento para alguma questão ou sonho, buscando um poder de cura especifico, reconectar com o sagrado e com toda a natureza, vão em busca de mudanças, atrás de sorte, colocar as idéias em ordem, etc. È uma oportunidade de estarmos novamente juntos com "todas as nossas relações".

Os nativos dizem "Mitakuye Oyasin" para representar essa união com o todo, onde considera tudo que existe como parente: os animais de quatro patas, os pássaros, as árvores, as pedras, as plantas e tudo mais na Criação.

Como diz Bobby Medicine Grizzly Bear, na Busca da Visão o que quer que se apresente fisicamente para saudá-lo ou tentar estabelecer contato com você será uma fonte de poder. Os sonhos que tiver, não importa quais sejam, também serão mananciais de poder.

Se o Buscador tem em seu coração o sincero desejo de ser um servo curador de sua comunidade, poderá oferecer um cachimbo em sua Busca, senão pode levar para ser apresentado às forças da natureza objetos de poder como cristais, tambor, pena ou qualquer objeto de cura que queira consagrar.

APOIADORES

Durante o período em que ocorre a cerimônia, os Buscadores estão em seu retiro no lugar sagrado. Todo o local onde estará ocorrendo a Busca é consagrado e pessoas ofertam seu desejo de estar apoiando a cerimônia e os Buscadores. São dias onde temos muitas coisas para organizar, para celebrar, para silenciar e para sustentar energeticamente. E é nesta parte que participa o Apoiador.

Os apoiadores revezam uma vigília em torno do Fogo Sagrado, que deve ficar aceso por todo o tempo da Busca. O Fogo é o ponto focal do poder, ele aquece e ilumina os Buscadores, mesmo à distância.

Cada refeição que é feita, é realizada de forma sagrada. É como se o Apoiador “comesse” pelo Buscador que esta jejuando no espaço sagrado.

Atividades que estabeleçam contato com o sagrado e despertem energia e proteção para os Buscadores são feitas durante o período. Os apoiadores participam de rodas de tambores, cerimônias de chanupa, círculo de contação de história, danças ao redor da fogueira, Inipi diária (tenda do suor), meditações e jornadas ao som de tambor. Iniciam o aprendizado nas direções sagradas e nas canções de poder e são fundamentais para manter a energia da cerimônia. Os apoiadores têm a oportunidade de conhecer mais profundamente a estrutura da cerimônia e se preparar, caso exista ainda alguma dúvida, para ser um Buscador no próximo ano.

Todos aqueles que sentem o chamado são bem vindos a participar da cerimônia, seja como Buscador ou Apoiador

Mitakuye Oyasin,

MARCUS FRAGA

ARTIGOS