A EXPERIÊNCIA DE UM BUSCADOR - Carlos de Oliveira

 

ARTIGOS

A BUSCA DA VISÃO - A experiência de um Buscador
04 a 08 de março de 2011-03-18
Chapada dos Veadeiros – Cavalcante/GO - Recanto do Arco-Íris

Quando decidi fazer a Busca da Visão, foi pelo fato de querer respostas para algo que acreditava não estar claro dentro de mim. Queria também me colocar numa situação extrema para ver se realmente despertava para outras realidades.

Após decidir fazer a Busca, ocorreram situações das mais adversas e experimentei situações em meu campo mental, tidas por mim em outros momentos até mesmo como hilárias. Em alguns momentos enfrentei medos, que aqui, de forma clara passo a relatar:

1º o medo de algum bicho me fazer algum mal durante a minha estada na montanha;

2º a fome: acreditava que não conseguiria vencer todos aqueles dias sem comer absolutamente nada. De forma inconsciente, pensava que iria morrer, afinal de contas, me informaram que deveria subir a montanha levando apenas aquilo que se levaria se fosse morrer;

3º a sede: meu Deus, será que um ser humano pode passar tantos dias sem beber nenhum gole de água? Ou mesmo, levando uma quantidade mínima, meu organismo não iria pedir mais e mais?

4º a vaidade: queria provar para alguém que era capaz e que chegaria ao final com uma certeza – eu venci a morte!

5º a mente: este talvez fosse o mais terrível de todos os medos que eu enfrentaria nesta Jornada Xamânica da Busca da Visão. Pensava que não conseguiria esvaziar a mente para obter as respostas para minhas inquietações mais profundas. Mas hoje estou escrevendo apenas o que sinto. Acredito que mais adiante, poderei dar outro depoimento sobre este trabalho.

Possivelmente não tinha idéia do que se tratava a Cerimônia de Busca da Visão, pois havia lido pouquíssima informação a respeito e já me considerava um expert no assunto. Ledo engano! Hoje sei que toda a informação é bem vinda e que devemos fazer as coisas com consciência e determinação.

Comecei entusiasmado para os 2 encontros preparatórios destinados a esclarecimentos de dúvidas, conversas, preparação interna, energética e espiritual, com a confecção dos rezos (saquinhos de oração que guardam e delimitam o local sagrado do Buscador). Disse para mim mesmo que naquele dia iria fazer 200 rezos, e que o restante (220) faria logo em seguida. Mais uma vez levei uma rasteira do meu sabotador. Consegui fazer apenas 10 rezos para a direção oeste (campo espiritual). De forma intuitiva, fiz um rezo para mim e um para cada um dos meus familiares mais próximos. No encontro, não consegui ir além disso. Deu-me uma angústia muito forte e muita, mais muita preguiça (novamente constatei a presença do sabotador agindo no meu psiquismo). Nesta primeira reunião foram esclarecidas as dúvidas, passadas as orientações de como fazer os rezos e demais informações do que levar. Tudo registrado fui para Casa me sentindo muitíssimo cansado e com o coração apertado (não tinha idéia do porquê deste sentimento).

Uma semana depois foi que consegui pegar novamente nos rezos e fiz mais alguns, totalizando 48 para a direção espiritual; Fiz um rezo para cada um dos irmãos de caminhada espiritual que colaboraram com o meu progresso e aperfeiçoamento neste campo. Novamente, as orações foram intuitivas.

Uma das informações passadas no 1º encontro diz respeito à necessidade de se fazer os rezos, pois, conforme depoimentos de quem já participou, os rezos trazem firmeza ao Buscador em sua Busca. Em outras palavras, serviria como ponto de apoio para os Buscadores.

Concluí a confecção somente na véspera da minha subida à montanha para fazer minha Busca. Sabia que se tivesse feito teria me ajudado nas questões de ordem interna. Seria como um balizador de tudo aquilo que eu estava sentindo.

A experiência na montanha

No dia do trabalho, após a Cerimônia de Sauna Sagrada/Inipi, todos os participantes subiram a montanha onde nós (buscadores) ficamos. Escolhi o meu Lugar de Poder e prendi os rezos nas 4 direções Sagradas. O Xamã veio, fez algumas rezas e fechou os cantos, momento no qual fiquei parado, em oração e confiante na guiança do trabalho. Depois, guardei meus pertences: nada além de uma sacola com saco de dormir, repelente, lanterna, capa de chuva, tambor (muito importante) e uma lona plástica para forrar o chão.

No primeiro dia e noite enfrentei a chuva, estava todo molhado e não conseguia dormir. Adormeci de exaustão não sei nem que horas da noite. E durante estes momentos agradecia ao Criador por aquela oportunidade. Em nenhum momento reclamei por aquilo que estava acontecendo.

O segundo dia foi mais tranqüilo, fez sol, consegui secar o saco de dormir e me secar completamente. Durante todo o dia, meditava sobre minha vida, as pessoas à minha volta e a situação que estava vivenciando. Tocava o tambor que havia levado com muita ligação com o meu lado espiritual. Consegui fazer ho´oponopono para tudo e todos e agradecia pelas respostas. No final da tarde e à noite voltou a chover, ficando novamente encharcado e com muito frio. Eu só me lembrava de agradecer a oportunidade daquele aprendizado. Aprendi a dar muito valor naquilo que eu tinha em minha vida. Dormi novamente todo molhado e agradecendo ao Grande Espírito pelas respostas e esclarecimentos sobre a vida.

No terceiro dia houve uma repetição do dia anterior, porém o clima era nublado e sem sol para aquecer-me. O tambor foi mais uma vez meu companheiro. Tocava bem baixinho no ritmo das batidas do coração. Novamente estava focado no trabalho de agradecimento e ainda procurava respostas para alguns embates do dia a dia que ainda não havia compreendido. Passei o dia molhado e com frio. A sede não apertava, a fome era controlada, porém, a mente ainda estava um tanto agitada No final da tarde estava cansado e sem forças, momento em que percebi a presença de um povo grande (+- 2,10m) em cada uma das quatro direções onde estavam amarados meus rezos. Para mim, aquela experiência foi muito gratificante, pois, entendi a profundidade do trabalho e o amparo do povo da montanha para comigo e tive a certeza que protegiam também os outros Buscadores. Senti-me reconfortado e confiante de que nada, absolutamente nada poderia me fazer mal naquele espaço de poder. Dormi tranquilo, apesar do frio. Lembrei-me de todos os amigos e irmãos de caminhada que cruzaram a minha vida no campo da espiritualidade. Agradeci e dormi confiante na proteção daqueles Seres.

O último dia foi maravilhoso, pois havia uma sensação de dever cumprido, apesar da exaustão. Peguei meu tambor bem cedo e comecei a tocar bem baixinho. Quando senti que os apoiadores lá em baixo estavam se preparando para vir buscar-nos, comecei a tocar mais forte e senti a energia fluindo dentro de mim de forma que jamais havia experimentado. Realmente a experiência com o Tambor é muito gratificante e faz maravilhas para obtermos um estado ampliado de consciência para melhor compreender o sentido da vida. Logo os apoios chegaram, retiramos os rezos e recolhemos os pertences para descer a montanha.

A Cerimônia encerrou-se com uma Sauna Sagrada, onde todos estavam agradecidos pelo resultado do trabalho em comum. Havia uma satisfação, apesar do cansaço; uma alegria serena pairava no olhar de todos aqueles viveram a experiência da Busca da Visão.

Por todas as minhas relações! Mitakuie Oyassim!

Gratidão, gratidão, gratidão!

Eu sou o Carlos e assim falei! AHOW!

ARTIGOS