UMA CIÊNCIA PARA A VIDA SUSTENTÁVEL - Fritjof Capra

 

ARTIGOS

A análise das diferenças e semelhanças entre as redes biológicas e sociais é essencial para a minha síntese da nova compreensão científica da vida. Meu objetivo não é só o de oferecer uma visão unificada da vida, da mente e da sociedade, mas também o de desenvolver um modo coerente de compreender, segundo o pensamento sistêmico, algumas das questões mais críticas da nossa época.

No decorrer deste novo século, dois fenômenos específicos terão um efeito decisivo sobre o bem-estar e o modo de vida da humanidade. Ambos desenvolvem-se em rede e ambos estão ligados a uma tecnologia radicalmente nova.

As redes do capitalismo global

O primeiro é a ascensão do capitalismo global; o outro é a criação de comunidades sustentáveis baseadas na prática do projeto ecológico. Ao passo que o capitalismo global é composto de redes eletrônicas de fluxos de finanças e de informação, o projeto ecológico mexe com redes ecológicas de fluxos de energia e matéria.

A meta da economia global, em sua forma atual, é a de elevar ao máximo a riqueza e o poder de suas elites; a do projeto ecológico, a de elevar ao máximo a sustentabilidade da teia da vida. Vou falar agora de modo mais detalhado sobre esses dois fenômenos.

Nos últimos trinta anos, a revolução da informática deu origem a um novo tipo de capitalismo, um capitalismo profundamente diferente do que se formou durante a Revolução Industrial ou do que se constituiu depois da Segunda Guerra Mundial.

Esse novo capitalismo tem três características fundamentais: suas principais atividades econômicas são globais; seus principais fatores de produtividade e competitividade são a inovação, a geração de conhecimentos e o processamento de informações; e ele se estrutura, em grande medida, em torno de redes de fluxos financeiros. Esse novo capitalismo global também é chamado de “nova economia” ou simplesmente de “globalização”.

Na nova economia, o capital acompanha passo a passo os acontecimentos e se desloca rapidamente de uma opção para outra numa busca global incansável pelas melhores oportunidades de investimento. Os movimentos desse cassino global, operado por máquinas eletrônicas, não seguem nenhuma lógica de mercado. Pelo contrário, os próprios mercados são continuamente manipulados e transformados por estratégias de investimento levadas a cabo eletronicamente, pelas percepções subjetivas de analistas influentes, pelos acontecimentos políticos ocorridos em quaisquer partes do mundo e - principalmente - pelas turbulências imprevistas causadas pelas interações complexas entre os fluxos de capital nesse sistema altamente não-linear. Essas turbulências, que em sua maior parte não podem ser controladas, resultaram numa série de crises financeiras graves nos anos recentes.

Até agora, o efeito da nova economia sobre o bem-estar da humanidade tem sido mais negativo do que positivo. Ela enriqueceu uma elite global de especuladores financeiros, empresários e tecnocratas, mas, no todo, suas conseqüências sociais e ambientais têm sido catastróficas.

Nestes últimos anos, os efeitos sociais e ecológicos da globalização têm sido largamente debatidos pelos acadêmicos e líderes comunitários. As análises feitas por eles nos mostram que a nova economia está gerando um sem-número de conseqüências danosas, todas elas ligadas entre si: o aumento da desigualdade e da exclusão social, o colapso da democracia, uma deterioração mais rápida e mais extensa do ambiente natural, e uma pobreza e numa alienação cada vez maiores.

O novo capitalismo global pôs em risco e realmente destruiu comunidades locais no mundo inteiro; e, com a prática de uma biotecnologia erroneamente concebida, violou a santidade da vida, na medida em que tentou reduzir a diversidade à monocultura, transformar a ecologia numa simples engenharia e fazer da própria vida uma mercadoria.

Cada vez menos se pode duvidar de que o capitalismo global, em sua forma atual, é insustentável e precisa ser reformulado desde os alicerces.

A sociedade civil global

Com efeito, no mundo inteiro, membros da comunidade acadêmica, líderes comunitários e ativistas sociais têm levantado a voz para nos dizer que temos de “virar o jogo”, e também para sugerir maneiras concretas de fazê-lo.

Toda e qualquer proposta realista de “virada” tem de partir do princípio de que a forma atual de globalização econômica foi concebida conscientemente e, por isso, pode ser reformulada. O chamado “Mercado Global” não passa, na realidade, de uma rede de máquinas programadas segundo o princípio fundamental de que o ganhar dinheiro deve ter precedência sobre os direitos humanos, a democracia, a proteção ambiental e todos os demais valores. Entretanto, as mesmas redes eletrônicas de fluxos de finanças e de informação podem ser programadas segundo outros valores. O problema não é tecnológico, mas político.

Na virada deste século, uma notável coalizão global de ONGs constituiu-se em torno dos valores da dignidade humana e da sustentabilidade ecológica. Em 1999, centenas de organizações do terceiro setor interligaram-se eletronicamente por vários meses para preparar ações conjuntas de protesto durante a reunião da OMC em Seattle.

A “Coalizão de Seattle”, que depois recebeu esse nome, atingiu plenamente o objetivo de tornar conhecidas no mundo inteiro as suas propostas e invalidar a reunião da OMC. Suas ações coordenadas, baseadas em estratégias de rede, mudaram permanentemente a atmosfera política que cerca a questão da globalização econômica. De lá para cá, a Coalizão de Seattle não só organizou outros protestos como também promoveu três encontros do Fórum Social Mundial em Porto Alegre. No segundo encontro, as ONGs apresentaram todo um conjunto de políticas comerciais alternativas, entre as quais se inclui a proposta concreta e radical de reestruturação das instituições financeiras globais, o que modificaria profundamente a natureza da globalização.

A Coalizão de Seattle é o exemplo de uma nova espécie de movimento político, típica da Era da Informática. Em virtude do uso hábil que fazem da interatividade, da velocidade e do alcance global da Internet, as ONGs da coalizão são capazes de interligar-se em rede, partilhar informações e mobilizar seus membros com uma rapidez sem precedentes. Em conseqüência disso, as novas ONGs globais tornaram-se personagens políticos importantes, e independentes das instituições nacionais e internacionais tradicionais. Constituem, assim, uma nova espécie de sociedade civil global.

Sustentabilidade ecológica

Há três grupos de questões que parecem concentrar a atenção das maiores e mais ativas dentre as coalizões do terceiro setor. O primeiro é o desafio de reformular as leis e instituições que regem a globalização; o segundo é a oposição aos alimentos geneticamente modificados e a promoção da agricultura sustentável; e o terceiro é o projeto ecológico - um esforço coordenado de remodelação de nossas cidades, tecnologias, indústrias e estruturas físicas a fim de torná-las ecologicamente sustentáveis.

Em geral, a comunidade sustentável é definida como aquela que é capaz de atender às suas necessidades e satisfazer suas aspirações sem diminuir as oportunidades das gerações futuras. Temos aí uma importante exortação moral que nos chama à responsabilidade de legar, aos nossos filhos e aos nossos netos, um mundo tão cheio de oportunidades quanto o que nos foi legado. Entretanto, essa definição nada tem a nos dizer acerca de como construir uma comunidade sustentável. O que nos falta é uma definição operativa de sustentabilidade ecológica.

A chave de uma tal definição operativa é a percepção de que não precisamos inventar as comunidades humanas sustentáveis a partir do nada, mas podemos modelá-las segundo os ecossistemas naturais, que são comunidades sustentáveis de animais, vegetais e microorganismos.

Educação ecológica e projeto ecológico

Uma vez que a característica mais marcante da biosfera é a sua capacidade intrínseca de sustentar a vida, uma comunidade humana sustentável tem de ser projetada de tal modo que seus modos de vida, suas atividades, sua economia, suas estruturas físicas e suas tecnologias não prejudiquem de modo algum essa capacidade intrínseca da natureza.

Essa definição implica em que o primeiro passo da caminhada rumo à construção de comunidades sustentáveis é a aquisição de uma “educação ecológica” (ecoliteracy), ou seja, a compreensão dos princípios de organização que os ecossistemas desenvolveram para sustentar a teia da vida.

Nas décadas vindouras, a sobrevivência da humanidade vai depender dessa educação ecológica - da nossa capacidade de compreender os princípios básicos da ecologia e viver de acordo com eles. Isso significa que a educação ecológica tem de tornar-se uma qualificação essencial dos políticos, líderes empresariais e profissionais de todas as esferas, e tem de ser, em todos os níveis, a parte mais importante da educação - desde as escolas primárias e secundárias até as faculdades, as universidades e os institutos de educação continuada e de formação profissional.

Precisamos ensinar aos nossos filhos os fatos fundamentais da vida - que os resíduos deixados por uma espécie viva servem de alimento para outra espécie; que a matéria circula continuamente pela teia da vida; que a energia motriz dos ciclos ecológicos vem do sol; que a diversidade é a garantia da capacidade de resistir aos imprevistos; que a vida, desde o momento em que surgiu, há mais de três bilhões de anos, não tomou conta do Planeta pelo combate, mas pela organização em redes.

A educação ecológica é o primeiro passo em direção à sustentabilidade. O segundo passo é a passagem da educação ecológica para o projeto ecológico (Ecodesign). Precisamos aplicar nossos conhecimentos ecológicos à redefinição fundamental das nossas tecnologias e instituições sociais, de modo a transpor o abismo que atualmente separa os projetos humanos dos sistemas ecologicamente sustentáveis da natureza.

O projeto, em seu sentido mais amplo, é a moldagem dos fluxos de energia e matéria em vista das finalidades humanas. O projeto ecológico é um processo pelo qual as finalidades humanas são cuidadosamente inseridas no contexto maior dos padrões e fluxos do mundo natural. Os princípios do projeto ecológico refletem os princípios de organização que a natureza desenvolveu para sustentar a teia da vida.

A prática do desenho industrial num contexto como esse exige uma mudança fundamental da nossa atitude em relação à natureza: deixar de pensar no que podemos extrair da natureza e começar a pensar no que podemos aprender com ela.

Nestes últimos anos, o número de práticas e projetos de base ecológica aumentou muito, e todos estão muito bem documentados. Entre eles, podemos mencionar a ressurreição da agricultura e da pecuária orgânicas em escala mundial; a coordenação de diversas indústrias em agrupamentos ou conglomerados ecológicos, nos quais os resíduos de uma empresa servem de matéria-prima para outra; a passagem de uma economia de produção para uma economia de “serviços e fluxos”, na qual as matérias-primas e componentes técnicos industriais circulam continuamente entre os fabricantes e os usuários.

Podemos incluir também a criação de edifícios que, sem os esquemas convencionais de aquecimento e refrigeração, têm um conforto ambiental perfeito e podem até gerar mais eletricidade do que utilizam; o desenvolvimento de automóveis elétricos híbridos que chegam a percorrer mais de 35 quilômetros com um litro de combustível e são mais seguros e confortáveis que os automóveis convencionais; e a elaboração de eficientes células de combustível movidas a hidrogênio que nos acenam com a possibilidade de uma nova era na produção energética - uma “economia do hidrogênio”. A célula de combustível é um aparelho eletroquímico que combina hidrogênio e oxigênio para produzir eletricidade e água - e mais nada! Com isso, o hidrogênio se torna o “combustível limpo” por excelência.

À medida que formos entrando nessa nova economia do hidrogênio, sua eficiência energética será tão superior à dos combustíveis fósseis que até mesmo o petróleo mais barato perderá a sua competitividade e não valerá mais o custo de sua extração.

Como gostam de salientar os projetistas ecológicos, a Idade da Pedra não terminou porque as pedras se esgotaram da face da Terra. Do mesmo modo, a Era do Petróleo não vai terminar por causa do esgotamento do petróleo, mas porque teremos desenvolvido tecnologias superiores.

Para concluir, quero lembrar a vocês dos dois fenômenos que terão um efeito decisivo sobre nosso bem-estar e nossos futuros modos de vida: a ascensão do capitalismo global e a criação de comunidades sustentáveis baseadas na prática do projeto ecológico. Essas duas possibilidades - ambas as quais envolvem redes complexas e tecnologias avançadas e especiais - encontram-se atualmente em rota de colisão.

Redefinição da globalização

Ao passo que cada um dos elementos de uma rede viva contribui para a sustentabilidade do todo e faz parte desse todo, o capitalismo global baseia-se no princípio de que o ganhar dinheiro deve ter precedência sobre todos os outros valores. Com isso, se criam grandes exércitos de excluídos e se gera um ambiente econômico, social e cultural que não apóia a vida, mas a degrada.

Entretanto, os valores humanos podem mudar; não são leis naturais. Não se trata de um problema de tecnologia, mas de política e liderança. O grande desafio do Século 21 será o de mudar o sistema de valores que está por trás da economia global de modo a torná-lo compatível com as exigências da dignidade humana e da sustentabilidade ecológica. E, com efeito, esse processo de redefinição da globalização já começou.

Fritjof Capra

ARTIGOS